Grave o seu nome, seu traço e reconheça a sua cor preferida. Num instante seguinte, mude de cor e de traço; se quiser, mude até a forma como desenha o seu nome. Descubra a liberdade de se transformar e de fazer a sua própria história”.

Helio Rodrigues


quarta-feira, 24 de agosto de 2016

ENTRE A VERDADEIRA OPINIÃO E O PRECONCEITO

Nos passeios culturais que promovemos com as crianças e jovens do projeto Eu Sou, há uma recorrência que nos primeiros anos me causava certo estranhamento. Quando pedíamos autorizações aos pais para que seus filhos pudessem participar desses passeios, alguns não permitiam, mas não alegavam o motivo.
Apesar do meu constante esforço, confesso que infelizmente o ranço assistencialista com alguma arrogância surgia em mim na forma de um pensamento:
“Como pode, estamos oferecendo uma oportunidade ímpar e alguns não aceitam?“
Acabei perguntando aos pais e obtive, de todos, respostas semelhantes:
- Acho perigoso quando meu filho sai da comunidade.
Diante disso eu tinha dois caminhos, me agarrar em alguma ironia preconceituosa ou refletir. Optei pela segunda e me veio ao pensamento que, apesar da indiscutível insegurança e a rotina de desrespeito que vivem os moradores das favelas, circular fora delas é viver outra forma de desrespeito: a discriminação.  
Quem já sofreu sabe que o preconceito é uma arma destruidora de identidades. De uma forma mais branda, pode-se dizer que, fora dos limites da favela, seus moradores experimentam uma espécie de “bullying” social. Por isso, mesmo em meio ao fogo cruzado dos tiroteios e até a insegurança de ter a própria casa invadida por policiais ou bandidos, é comum acreditarem que dentro da comunidade em que vivem, suas identidades ainda podem ser minimamente  preservadas.
O objetivo do Projeto Eu Sou é justamente promover o fortalecimento dessas identidades para que as defesas dessas pessoas não sejam os limites físicos da favela, mas sim o autorreconhecimento e a potência que a arte ajuda a descobrir.
Todos nós, da favela ou do asfalto, precisamos dessa relação mais sólida com nós mesmos e assim, desapegados da frágil, porém arrogante defesa que os preconceitos oferecem possamos verdadeiramente desenvolver nossas opiniões e colaborarmos para o desenvolvimento de uma sociedade mais justa, menos restrita e mais comum a todos.
Nesse sentido, temos conseguido com o projeto dentro de comunidades, importantes resultados, mas fora delas, no chamado asfalto, os preconceitos são também responsáveis pela restrição das fronteiras estabelecidas por seus moradores.
A instalação artística: “No espaço entre nós”, propõe a reflexão sobre essa questão com uma pergunta:
O que pode fazer a arte com esse espaço vazio existente entre nós?
Jovens dos dois lados dessa sociedade partida responderam apenas com arte e com maestria.


quinta-feira, 21 de abril de 2016

QUE A ARTE FALE O CONTRÁRIO

Os dias têm sido muito difíceis na favela do Jacarezinho e em todo o seu entorno, um local onde o projeto Eu Sou já criou raízes. Afinal, faz 10 anos.
Nesses dias de UPP, a violência parece se confirmar ainda mais banal; mas isso apenas para quem mora longe. Na verdade assustador para quem mora dentro da comunidade e que, entre outras coisas, precisa sair para trabalhar e é obrigado a deixar seus filhos seguros apenas pela fé num "que Deus os proteja".
Uma ação simples como ir à padaria tem hora e momento...e pode ser que nem tenha.
Os confrontos entre policiais e bandidos são assim mesmo, frequentes, e nesse ambiente as vidas só perdem valor. Quem estiver na linha de tiro leva a tal bala que dizem que é perdida.
Dentro do projeto, nosso trabalho é permitir que a arte fale o contrário que o cotidiano insiste em afirmar. Queremos que os nossos alunos vejam e escutem a própria arte. Que eles reúnam seus cacos de desvalia e se reconstruam. Que eles se olhem e se confirmem visíveis. Que eles se fortaleçam para poderem desejar algo que transcenda as paredes perfuradas de tiros de suas casas ou que transcendam o falso modelo de "sucesso" dos bandidos e suas armas douradas na cintura. Que possam ir além dos olhares de desdém de muitos policiais, como se ali só existissem seres indignos.
Nossa equipe de professores vem de vários pontos, empenhados em resgatar a sensibilidade das crianças, dos jovens e dos adultos da favela já tão anestesiados pelo medo e tão amargurados pelo desrespeito. 

Vem professor, da zona sul, norte, oeste e da própria comunidade, todos com muito medo. Nossos alunos chegam esbaforidos, com cara de "ufa, consegui!!!", como se dissessem: atravessei o "front"!
Todo o esforço dessas crianças e jovens para chegar nessa ilha de arte e paz merece encontrar por lá a dedicação dos  professores. Posso afirmar que o esforço e a coragem é geral.

domingo, 24 de maio de 2015

A VIOLÊNCIA NÃO CABE NESSE UNIVERSO

Sobre esses tristes acontecimentos que vêm assolando a nossa cidade, o que me choca é a confirmação da criminalidade nas mãos das crianças, mas ao mesmo tempo não me sinto refém do: “como pode?”.

Assisto a chegada de crianças no projeto, algumas já tão anestesiadas pelo descaso e a violência física e moral desde tão pequenas que, apesar do horror e crueldade desses acontecimentos, tudo isso parece uma inevitável decorrência.

Essas crianças não se reconhecem. “Sou o que dizem de mim”.

Se não sentem a própria presença no mundo, como podem perceber e respeitar a presença do outro?

Vivem da concretude de “ter” para tentarem “ser” através das coisas; e só das coisas...celulares, bonés de grife, bicicletas...

Primeiro passo:
Tirá-las da anestesia, torná-las sensíveis sobre si mesmas para em seguida perceberem o mundo. O resto é progresso, crescimento pessoal e o desejo de ser.

No projeto não há texto, discurso moral ou dogmas religiosos. É só arte. Mas não é a arte resumida em descoberta de talentos ou em produtores do “belo”. É a arte que nos acessa, que nos significa, que abre janelas para se ver, pensar, escutar...

A violência não cabe nesse universo.

segunda-feira, 31 de março de 2014

MAS E A ARTE? O QUE FAZ A ARTE?



Talvez uma das maiores fontes de criação seja os opostos. 
Atravessar a linha que define a fronteira entre um e o outro, pode alimentar do novo e do imprevisível aqueles que conversam com a arte.

Como artista, me atraio pelas inúmeras possibilidades que me oferecem os contrários e de certa forma me repito como arte-educador, já que as diferenças sociais me instigam a pensar as possibilidades de aproximação que podem existir.

Quando produzimos a instalação “O Muro” http://omuro-projetosocialeusou.blogspot.com.br/, queríamos promover a aproximação entre os olhares de jovens da favela do jacarezinho e os olhares da sociedade formal, tendo a arte como instrumento de ligação. Conseguimos. O numero de visitantes e as questões levantadas por eles foram surpreendentes.

Depois de alguns pousos em museus e centros culturais o Muro continua viajando. Em abril de 2014, ficou instalado por três meses no Museu Oscar Niemeyer em Curitiba. 
Este ano vamos retomar a apresentação do "Muro" em novos espaços. Paralelamente demos inicio ao "Eu sou arte”, uma nova obra de instalação artística, interativa, baseada nos obstáculos que dividem a sociedade brasileira, sendo que dessa vez o recurso de comunicação utilizado para atravessar os muros sociais não serão os olhares, mas os corpos de jovens da favela e do asfalto, ocupando os vazios e os sentimentos que vão sendo criados entre eles. 
Simplificadamente, a pergunta que dá origem ao conceito do "Eu sou arte" é:
Quando não há proximidade ou identificação entre diferentes, o que pode existir no espaço entre um e outro?
As respostas serão dadas por cada um dos participantes 
Originalmente acredito que existia apenas um grande espaço vazio, mas a tendência nos dois grupos foi preenchê-lo com  a indiferença e logo a seguir o preconceito.  
Quando os vazios estão localizados entre grupos sociais que já não se reconhecem, como é o caso das favelas e a sociedade reconhecida, podem ir além do descaso e o preconceito para se afirmar na violência. 

Mas e a arte? O que faz a arte?


  • Amplia o olhar para além da concretude das coisas ou do olhar restritivo de um único angulo.
  • Se desenvolve na falta, no vazio e não do que se apresenta pronto, completo, preenchido. 
  • Promove conexões do indivíduo com ele mesmo e assim a ele concede existência.
  • Promove relações com códigos muito próprios, que não precisam passar por premissas ou condições sociais pré-estabelecidas.
Se isso já não bastar vale lembrar que para se produzir ou contemplar arte não é necessário graduação, muito menos falar a mesma língua, ter a mesma raça ou religião. No universo da arte, o diverso é a grande fonte de alimento para ela existir..




terça-feira, 18 de março de 2014

O DENTRO E O FORA NAS FAVELAS DESSA CIDADE

Faço parte da equipe do projeto EU SOU, um projeto social criado pelo arte-educador Helio Rodrigues que usa a arte na construção da subjetividade de crianças e adolescentes moradoras de áreas carentes.
A maior unidade do projeto acontece dentro de um laboratório farmacêutico no bairro do Jacaré e atende principalmente moradores da favela do Jacarezinho, vizinha à fábrica.

Recentemente soubemos que uma espécie de depressão coletiva se abateu sobre a região da favela do Pica-pau situada no complexo do Jacarezinho, depois do trágico incêndio que matou duas crianças de três anos em dezembro do ano passado. Decidimos então ir pessoalmente ao local para falar com as pessoas sobre o projeto e divulgar o período de inscrições para 2014.

O que vi foi um retrato desolador. A completa desassistência que assola a população carente do Rio de Janeiro, faz com que eles tenham que lidar com muitas faltas, mas a maior e pior delas é ter que lidar com a falta de dignidade a que são submetidas pela ausência do poder público. As casas da região margeiam um rio coberto de muito lixo, algumas delas ainda são palafitas. Na casa vizinha aos escombros daquela destruída pelo incêndio, um bebê de cerca de um ano vestindo apenas uma fralda, andava no meio do lixo enquanto uma mulher, talvez sua mãe, talvez sua irmã, em geral não há muita diferença na idade de uma e de outra, o observava apaticamente.

Vamos andando, falando com as pessoas, dentro e fora das casas. Também não são muito claras as fronteiras entre o dentro e fora nas favelas cariocas. As vielas do Pica-Pau são tão estreitas que uma pessoa de braços abertos pode facilmente encostar nas casas vizinhas uma de frente para outra. As pessoas nesse vai e vem estreito, eventualmente dividem o espaço com uma criança de bicicleta que insiste em reivindicar seu direito de ter uma infância normal. Dentro das casas o desafio de abrigar a vida cotidiana de famílias inteiras em um único cômodo faz com que o eu e o outro muitas vezes se confundam.

Em geral temos uma boa receptividade, as pessoas ficam contentes em saber que um sopro de arte pode vir a tocá-las. "É bom pra distrair a mente" diz uma mulher sentada numa pequena cadeira dentro de sua casa, no escuro, uma mão no cigarro caído, a outra no folheto do projeto que eu lhe entregava de onde estava, parada na rua, sem nem precisar me mexer ou esticar muito meu braço.  Seu olhar apagado, tão escuro quanto a casa, tão marcado com a desesperança que pesa sobre ele, me faz ficar na dúvida se ela quer apenas esquecer aquilo tudo, ou se viu, quem sabe, a arte pode iluminar sua
escuridão, ou pelo menos parte dela.

Seguimos. Em algumas esquinas a força de resistência da alegria mítica do carioca aparece. Um grupo conversa animadamente numa parte um pouco mais larga da rua, ali no meio, sentada num degrau, uma mãe fazia carinho em sua filha de uns 10 anos deitada com a cabeça em seu colo. Ela catava os piolhos da menina com cuidado e a filha revirava os olhos de prazer com aquele carinho demorado.

 No grupo, um jovem com necessidade especial me faz pensar nos estímulos que poderia ter para viver melhor e dos quais é tristemente privado. Ali no meio da roda um bebê preocupantemente magro está parado de quatro. Ninguém parece vê-lo. Quando sai engatinhando bem devagarzinho, deixa uma pequena poça em seu lugar. De seu short, sem fralda, o xixi vai pingando por onde ele passa. Assim como a moça do cigarro caído, ele também tem os olhos apagados, poucas coisas são tão impactantes quanto um bebê sem brilho no olhos. Ele me vê conversando com uma das mulheres do grupo e estende a mão em minha direção como se me pedisse algo. Como não tinha mais nada, ofereci um folheto, pensando que talvez ele gostasse de brincar com um papel colorido, mas ele não se mexe nem quando encosto o folheto em sua mão, parece não ter forças para fechá-la. Falo um pouco com ele, mas preciso seguir em frente com o resto da equipe, ele fica ali, chorando de mão estendida em minha direção. Eu? Saio com a garganta fechada e uma enorme opressão no peito.

Nossa equipe provoca algum estranhamento naquele lugar, mas principalmente percebemos muitos sorrisos e agradecimento em nossa direção. Já saindo encontro um casal de uns 60 anos, esses muito articulados e com os olhos bem vivos, como muitos outros que ainda existem e resistem no Pica-Pau.
Os dois ficam muito interessados no que tenho a dizer e quando termino me perguntam: “Você é da prefeitura?”. Respondo que não. “Pois é, que bom saber que existe esse projeto”, dizem eles, “aqui não chega nada da prefeitura. Você pode imaginar, me pergunta ele, quantos músicos temos aqui? Quantos
cantores? Quantos atletas? Quantos artistas?”

Sim, posso imaginar.

Tive o privilégio de conhecer alguns deles nos meus anos de trabalho no Projeto Eu Sou e estou certa que conhecerei muitos mais.

Saio com um pouco daquele lugar e daquelas pessoas dentro de mim. Não há mesmo muita diferença entre o dentro e o fora nas favelas desta cidade.

Andrea Glicberg Spiegel
Arteterapeuta e Arte-educadora






segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

SEXUALIDADE - Relato de uma observação

Nos meios onde a afetividade por qualquer razão não é desenvolvida, a sexualidade prematura pode ocupar o espaço vazio.
Em muitas famílias só vamos encontrar algum contato afetivo durante o primeiro ano de vida de suas crianças. Com o passar do tempo as ações afetivas tornam-se cada vez mais escassas. Muitos podem ser os motivos para esse comportamento tão recorrente. De qualquer modo, a falta de recursos básicos de sobrevivência, somada à discriminação social que sofrem os indivíduos desfavorecidos, já são motivos suficientes para que o afeto se torne um “luxo dispensável” na ordem de suas prioridades.
Como o afeto é reconhecidamente um dos principais fatores para o desenvolvimento e manutenção da autoestima, podemos então compreender porque as comunidades pobres são também grandes celeiros de baixas autoestimas.
Há uma relação muito estreita entre a construção da identidade e o valor que o indivíduo dá para si mesmo. Nosso trabalho no projeto visa exatamente resgatar valores subestimados por indivíduos da periferia social, e assim favorecer uma dinâmica em que autoestima e identidade se nutrem e se constroem mutuamente.
Observando as crianças que entram no projeto “Eu sou”, percebe-se que as meninas parecem fantasiar a maternidade como um recurso possível para a construção de suas identidades. Através do desejo de maternidade, elas se vêm “re-produzindo” (como se estivessem produzindo a si mesmas mais uma vez). Com a maternidade elas acreditam que poderão ter, quase que fundido ao próprio corpo, algo realmente delas e com o qual poderão se relacionar, se verem refletidas, se projetarem.
Quando de fato esse desejo se realiza e essas meninas se tornam mães, a cada dia desse contato mãe e filho se amplia uma simbiose, construída e revitalizada constantemente por sentimentos compartilhados.
À medida que esse encanto da mútua dependência vai se desfazendo, em grande parte por obra da dura realidade que faz com que as necessidades mais básicas não sejam atendidas e a história parece se repetir, vai também ocorrendo um gradual afastamento físico-afetivo entre mãe e filho.
Permanece muitas vezes, apenas uma preocupação e um amor velados pelas camadas sucessivas de frustração a que essas mães se submetem.
S. é uma menina de 11 anos, com sérios comprometimentos afetivos como tantas outras que atendemos no projeto. Distribui seu tempo entre a catação de latas nos lixos das proximidades da favela onde mora e a escola, da qual pouco participa. Tem uma maternal e repressora relação com o irmão de 10 anos.
Durante todo o tempo em que participou das aulas no projeto, pouco falou de sua mãe e nunca de pai ou alguma avó. Quando a conhecemos, tinha uma aparência descuidada no vestir e pentear-se e durante um bom tempo teve um comportamento de desconfiança com relação aos professores e colegas, além de nítido desprezo pelos seus produtos. Se limitava a reprimir o irmão, sempre com um linguajar agressivo com ele e com a vida. Algumas vezes S.se apoiou em uma certa religiosidade, reforçando a ideia de um Jesus poderoso e punitivo.
Depois de uns 3 meses frequentando as aulas do projeto, foi descobrindo um potencial que lentamente a levou a um processo de auto identificação. À partir daí, começou a esboçar os primeiros sorrisos e uma expressão facial mais relaxada. Desvinculou-se do compromisso de controlar o irmão e passou a proteger seus produtos.
Desenvolveu um trabalho em argila que ilustra muito bem essa relação, que estabelecem algumas meninas entre identidade e maternidade.
Construiu com massa e tintas uma espécie de maquete à partir de um bebê e uma mãe. Realizados esses dois personagens (que até podemos ler como um único personagem: ela própria), criou cuidadosamente o entorno para os seus personagens: berço, cadeira, cama, travesseiros, sofá, almofadas, tapete, estante e objetos como: mamadeira, brinquedos, etc...
Todo início de aula conferia em sua prateleira de trabalhos, se sua maquete permanecia lá, inteira. Os detalhes de execução a que ela se deteve, assim como a suavidade das cores que utilizou em seu pequeno sonho em construção, se contrastavam com o aspecto rude, seco e até desagradável de seu comportamento no início do projeto. Ocorreu, portanto, uma verdadeira transformação, tanto no seu comportamento, que se tornou até carinhoso, como nas suas atitudes de um modo geral.
Tornaram-se também visíveis os cuidados com o próprio corpo e aparência.
Demonstrações simples de afeto são raras em grupos que se formam à margem da sociedade formal. As condições de total precariedade física e material criam um meio ambiente afetivo e emocional também precário e deturpado. Para muitas crianças, o contato físico decorrente de uma possível relação afetiva se resume à sexualidade explícita que alguns inevitavelmente assistem dentro dos ínfimos cômodos que famílias inteiras compartilham. Portanto, nessas condições, essas crianças são sexualmente e afetivamente violentadas.
Quando se fala em violência, comumente associamos às agressões físicas. No entanto, toda experiência ou ação que atravessa os limites que uma pessoa pode suportar, torna-se uma  forma de violência imposta à estrutura desse indivíduo.
Quando digo que muitas de nossas crianças são violentadas sexualmente, estou incluindo nessa minha afirmação, todas essas experiências inapropriadas que lhes são impostas pelas condições de vida às quais elas estão socialmente submetidas.
A partir dessas condições, se inicia uma cultura que mistura e confunde afeto com sexualidade, ou ainda, promove a ideia de que não existe afeto sem sexo.
Muitos desenhos, pinturas e esculturas produzidas por nossas crianças têm dado conta de boa parte dessa realidade e, mais do que registros para elas, suas ações criativas associadas ao afetuoso acolhimento de todos nós, têm sido um forte recurso, uma forma de apoio para que possam rever esses valores que fazem do sexo, sinônimo de afeto.


terça-feira, 28 de janeiro de 2014

CRIMINALIDADE E ARTE

Na novela “Amor à vida” exibida até recentemente pela TV Globo, o personagem Ninho, vivido por Juliano Casarré, é um artista plástico que divide seu tempo entre a arte e a criminalidade. Apesar do excelente trabalho do ator, que emprega um tom ingênuo, quase burro ao personagem, para, quem sabe, conseguir reunir esses dois perfis num só sem precisar lançar mão de uma esquizofrenia, confesso, não consegui acreditar nessa parceria.
Já faz bastante tempo que me dedico à arte-educação e, entre as minhas ações, o projeto “Eu sou” tem sido um espaço de colheita de excelentes resultados, por isso posso afirmar: ainda não assisti alunos que depois de estabelecerem vínculos verdadeiros com a arte tivessem ido ao encontro ou debandado para a criminalidade. Sinto que há algo de incompatível nessa dupla escolha.
Acredito, que à partir do contato com a subjetividade que propõe a arte é também promovido o desenvolvimento de um valor maior nos sujeitos, ou ao menos ela traz reflexões a respeito deles. 
Durante o processo de relação entre o indivíduo e a arte, a primeira conquista é a autodescoberta que traz estima ao próprio indivíduo e consequentemente maior valor sobre si mesmo. Nutrir-se de si mesmo; isso é o que fundamenta, é o que dá origem ao processo de construção de sujeitos.
A descoberta do outro costuma ocorrer num movimento seguinte; como uma continuidade de si mesmo essa descoberta confirma a própria existência ao mesmo tempo em que leva à valorização desse outro ou ao menos algum respeito por ele.
 Vividos esses dois processos tão importantes de construção, esses indivíduos então descobrem o poder que têm de mudar o entorno; e assim se fazem sujeitos políticos, sociais e afetivos.
É ainda essa subjetivação (valorização do sujeito), tão bem veiculada pela arte, que pode equilibrar o excesso de valor que é dado à coisa nesse mundo em que vivemos.
Em resumo:
O que, eliminando-se as patologias (que aliás pouca representação têm nas estatísticas), pode ser mais responsável pela criminalidade do que: o pouco valor à vida, as passionalidades e o desejo de ser através da conquista de coisas?
Não precisamos de pessoas-máquinas, pessoas repetidoras, nossa era é pós industrial. Não precisamos de auto desconhecidos, eles não têm porque preservar a própria vida ou a dos outros. Precisamos de seres pensantes, produtivos. Já temos muitos vivendo à margem da sociedade formal, basta resgatá-los com educação e arte.


quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

“ESTÉTICAS APRISIONADAS"


Tema das palestras ministradas por Helio Rodrigues nos locais de exposição da instalação:
"O MURO"

EAV- Escola de artes visuais do Parque Lage em janeiro de 2013 - RJ
Circuito Cultural da Praça da liberdade em outubro de 2013 – BH
Em abril de 2014 no Museu Oscar Niemayer - Curitiba


Passei grande parte da infância me sentido um peixe fora d’agua, experimentando uma quase constante sensação de não pertencimento até os meus 13 anos quando a arte me foi apresentada.
Foi a arte que me deu condições para ir me construindo e desconstruindo ao longo da vida; é claro, repleto de dúvidas e conflitos. Foi com ela também que descobri a intensidade que pode existir em tudo com que nos relacionamos.
Muitos anos depois, criar e desenvolver o Projeto Social “Eu sou” não foi acaso. Também não foi uma atitude heroica, como já quis acreditar, nem tão pouco altruísta. Penso que tudo começou por uma vontade de rever e tratar profundamente a minha própria identidade.
Parece frase pronta, mas aprendo muito com as crianças e os jovens que atendemos. Além, evidentemente, da imensa troca que todos nós da equipe estabelecemos.
Mas, ainda sobre os meus ganhos pessoais, vale dizer, as crianças me exigem praticar a pluralidade e não apenas acreditar nela teoricamente. Além disso, me permitem rever, refletir e interagir com a tal sensação de não pertencimento que experimentei na minha infância. Esse não pertencer legitimamente é também muito comum entre as crianças e jovens de favelas. Há na verdade, pouco direito à escolhas.  Dentro de suas comunidades existem dois espaços muito fortes que se apresentam como possibilidades: a criminalidade ou a igreja.
Sem dúvida, as favelas desenvolvem uma cultura e uma estética própria, mas, quase sempre confinada, restrita, cerceada pelos muros sociais. É essa mesma estética que passa a ser identificadora de uma massa de pessoas que vive nessa condição. Não há verdadeiramente individualidade. A favela em si é a grande mãe que concentra a identificação.
Com o desenvolvimento do projeto percebemos que, quando essas crianças e jovens, incentivadas pelo contato com a universalidade da arte, atravessam os muros sociais passam também a estabelecer contato com outras normas culturais. Se confrontam então com uma estética além das fronteiras que até então conheciam. Nesse ponto, por mais que não haja condutas discriminadoras por parte da equipe de profissionais, muitas vezes, os próprios alunos começam a apresentar um perigoso desprezo por suas origens estéticas e culturais. Outros, se defendem abandonando o projeto como se quisessem “apagar” ou interromper a própria sensibilidade. Possivelmente esses, preveem as mudanças que podem ocorrer em suas vidas e preferem desistir.
Essas ocorrências se tornaram muito preocupantes para nós do projeto. Por isso pensamos e realizamos um movimento emergencial. Criamos uma série de atividades artísticas para instigar nossos alunos a pensarem dois conteúdos presentes nos processos artísticos:
1- As diferenças entre um olhar extraordinário e um olhar ordinário.
2- O poder da descontextualização, quando fazemos um recorte sobre um todo qualquer.
Depois de uma série de exercícios e reflexões baseadas nesses conteúdos, pedimos que cada um, munido de seu olhar ampliado, recortasse fotograficamente uma imagem de sua comunidade. Os resultados foram surpreendentes.
 “O Muro” é o resultado desses recortes. Um grande obstáculo que foi sendo vazado pela sensibilidade de muitos olhares. Ele é o resultado da intervenção da arte na vida desses jovens. Traz dentro dele a oportunidade da confirmação da força que tem o olhar quando é permeado pela arte. 
Todos nós, da favela ou não, vivemos aprisionados pelas nossas estéticas. Somos regidos por um poder maior que nos dita o que devemos aplaudir ou rejeitar em nossas vidas. Tudo, supostamente, para pertencermos a algum meio social.
A arte, no mínimo amplia nossa área de pertencimento. Muitas vezes ainda faz melhor, ela nos universaliza. Os muros, por sua vez,  perdem o poder que têm de cercear e acabam se transformando em objeto questionador. 

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

ESPECIAIS AGRADECIMENTOS À FARMOQUÍMICA NOSSA PARCEIRA NO PROJETO "EU SOU" E NAS EXPOSIÇÕES DO "MURO"

sábado, 6 de outubro de 2012

O MURO

" O Muro"  esteve em exposição no auditório da EAV - Escola de artes visuais no auditório do Parque Lage de 11 à 27 de janeiro de 2013. 

A palestra "Estéticas aprisionadas" foi ministrada por Helio Rodrigues nos dias                   

                         11 de 20:00 às 20:30h

                          23 de 19:30 às 20:00h  


Até se constituir uma instalação, “O Muro” foi sendo desenvolvido em função de muitas ocorrências à partir da ampliação do universo estético das crianças e jovens participantes do projeto “Eu sou” .
Acreditamos que o contato com a arte deflagrou um olhar crítico nesses alunos. A verdade é que eles se tornaram bem mais severos com a estética existente em sua comunidade. Se por um lado, nós da equipe do projeto vemos nesse novo olhar um crescimento, por outro, tornou-se preocupante pensar essas crianças inseridas num movimento desvalorizador de suas origens. Isso só poderia resultar num processo de autodesvalorização.
A solução para isso estava na própria arte com seus recursos reavaliadores do olhar. 
Depois de uma série de propostas artísticas criados especialmente para essa reavaliação, iniciamos, junto aos nossos alunos, várias incursões pela favela. Munidos de máquinas fotográficas e olhares sensibilizados pela arte, nossas crianças e jovens realizaram importantes registros de seus espaços de origem.
Foram muitas e surpreendentes fotos de excelente qualidade artística e que não podiam ser  mostradas num simples painel expositor. Queríamos uma maior proximidade dos espectadores com esses olhos e olhares. Surgiu então a ideia de um grande muro divisor construído pelos 80 olhos desses jovens. O encontro da iris do  espectador com a iris de cada um desses jovens permite que se veja o quanto a sensibilidade e a arte impregnaram esses olhares..

quinta-feira, 31 de maio de 2012

UMA CASA QUE ME RECONSTRUA


Uma casa reúne significados, os mais diversos, os mais particulares para quem a idealiza, planeja, deseja, constrói. Uma casa também refugia sentimentos. Podem existir portas, podem existir janelas. Abertas, fechadas ou nem existirem.
Uma casa pode ser a arquitetura de um indivíduo. E foi pensando assim que nós do projeto disponibilizamos argila, espetos de madeira e tintas para cada um pensar e produzir sua casa. 
 “Construam uma casa do seu jeito!
Com essa frase instigamos nossos alunos a pensarem em si mesmos, suas famílias, suas origens, seus sonhos.
Eles nos responderam com uma série de aulas repletas de idéias, emoções, desejos e descobertas de competência.
Construir uma “casa”, com os recursos da arte, pode ser o inicio da reconstrução de uma identidade mais forte, uma forma de lidar com a própria estrutura ou de trazer o sonho para mais perto da realidade.






















segunda-feira, 29 de agosto de 2011

NO SOLO DA ARTE

Quando a arte está distante de nós, seus efeitos não se refletem apenas na perda intelectual dos indivíduos ou de uma sociedade, perde-se algo talvez mais valioso, que é a subjetividade que identifica e fortalece os sujeitos. Os efeitos danosos dessa distância tendem a se manifestar fortemente também no tempo e na matéria. O tempo torna-se estimulante da ansiedade, já que o prazer, torna-se uma meta a ser conquistada o mais rapidamente possível. A matéria, torna-se promessa de solução para a conquista desse tal prazer, que por ser coisa, em pouco tempo estará imperfeita, incompleta e superada por um novo objeto. O capitalismo talvez seja a única instituição que serpenteia todas as classes, vendendo a ilusão de que o consumo é a ferramenta da conquista, um medicamento para todos os males. A reboque ele vem desenvolvendo um outro movimento ilusório, um movimento de busca pela perfeição com promessas de “grande cura” para todos. Na prática, nos mantemos então todos “democraticamente” doentes, já que não há perfeição.
Não é diferente em qualquer classe social. Escuto de crianças muito pobres e de crianças muito ricas uma mesma frase:
Quero que fique perfeito.
Entre as crianças do projeto “Eu sou”, não é diferente. A estética da sociedade do asfalto, ou seja, dos que estão fora da favela, reina soberana sobre a pobreza, a sujeira, a violência, a falta de educação, a falta do privado. Tudo é escancaradamente público nas favelas, como num grande reality show.
O projeto é um espaço de arte; lidamos com estéticas, mas para as nossas crianças eles se vêm incompetentes para produzirem alguma estética que considerem "louvável". Paredes sem reboco, valas abertas, lixo...será que podem competir com o bem pintado?
Bonito é piso de porcelanato...lisinho, disse um adolescente quando discutíamos com um grupo os conceitos de belo e feio.
Precisávamos rever esses olhares com urgência. Começamos então estimulando o olhar dos nossos alunos sobre eles mesmos. Para isso, trouxemos uma proposta associada a uma técnica que consiste em que cada um se imagine semente lançada sobre o solo da arte. Em seguida, deitados sobre um grande papelão cada um procurou uma posição que fosse a representação do próprio renascimento, agora contaminados por esse novo solo.
Contornados seus corpos ou parte deles foram então recortados e preenchidos por cada um com todos os materiais que pudessem representar a idéia de renascimento através da arte.
Terminados os mais de oitenta contornos, montamos uma instalação em forma de uma grande mandala tridimensional no pátio da FQM (empresa patrocinadora do projeto), onde durante uma semana recebeu a visitação de funcionários e visitantes.
Após essa intensa relação entre os alunos com seus próprios registros criativos, promovemos uma nova etapa: A revisão da qualidade do olhar que todos nós estabelecemos com o entorno; com o que nos envolve. Acreditando que o desenvolvimento de um olhar criativo sobre um pequeno espaço, pode ser uma importante colaboração para se enxergar o extraordinário dentro dele e em seguida ampliá-lo para fora dele. Voltamos então ao piso, não o de porcelanato, mas o piso comum, cimentado; em geral com remendos, manchas, rachaduras, texturas... Com um pequeno grupo de alunos, todos munidos de pequenas molduras retráteis de cartolina preta, nos debruçamos sobre um metro quadrado desse piso, emoldurando pequenos pedaços, criando verdadeiros recortes de olhar sobre o “imperfeito”. Na medida em que emoldurávamos, todos descobriam diálogos plásticos entre cinzas, ranhuras, pingos ou manchas. Caramba, são quadros! Muitos quadros! Disse um dos alunos. Então eu disse: Olha que só visitamos um metro quadrado...imagina todo esse piso...e essas paredes? Saímos em seguida caminhando apenas guiados pelo olhar que, por estar “emoldurado”, fazia com que as chamadas “imperfeições”, quando recortadas, fossem retiradas do contexto que as nomeava. Durante esse passeio estético, um homem que varria um corredor nos perguntou o que era aquilo. Respondemos: Estamos procurando beleza nas coisas que costumamos chamar de feias. .

quarta-feira, 29 de junho de 2011

SIMBIOSES

São muitos olhares dissimulados, por vezes com aparência arrogante e de pouco caso, ou mesmo atitudes agressivas que, no entanto, escondem uma infância propositalmente “engessada”.
Engessar-se, pode ser um recurso, uma proteção quando uma estrutura se encontra débil ou já rompida. Pode ser também, uma maneira de manter a infância distante delas já que esse período pode ser fragilizador para crianças inseridas num meio repleto de injustiças e violências.
Em condições tão adversas como as que muitas vivem, viver a própria infância é mesmo um estado de perigo, porque pode vitimá-las através das brechas de ingenuidade e pureza que naturalmente caracterizam esse período.
Ser criança num meio social destituído de condições ao menos razoáveis de acolhimento e expressão, pode fazer desse indivíduo um alvo fácil do sofrimento. Dissimuladas, ou vivendo como adultos prematuros, essas crianças se afastam do criativo, escondem desejos ou se deixam levar pela ousadia de um sonho.
Tudo que se configura abstrato para essas crianças parece ampliar a insegurança; por isso elas se lançam na concretude.
Em meio às muitas estratégias de sobrevivência social, uma das constantemente observadas é a simbiose.
Durante os primeiros contatos com o projeto, nota-se que algumas crianças parecem não chegar sozinhas às aulas, formam como que “duplas de apoio”. Decidem e escolhem sempre juntas durante o processo das aulas, além de (é claro), construções, desenhos, esculturas e pinturas iguais. A forte sensação que temos sobre esse comportamento é:
“Se eu sou meia pessoa para escolher e decidir, me junto a outra meia pessoa e, quem sabe assim, eu possa construir uma pessoa inteira?”.
Enfraquecidos pela constante inferiorização e desvalorização de seus potenciais, as vítimas desse sistema lutam por suas sobrevivências articulando associações, como se pudessem realizar formações genuinamente individuais “de dois”. Assim agem nossos pequenos simbióticos, compactuando vontades aparentemente tão iguais.
Dessa íntima relação “dois em um”, por vezes “três em um” ou mais, não podemos esperar opiniões ou desejos individuais. Até a simples escolha de uma cor ou um formato de papel passa por um filtro de olhares, que pode autorizar ou negar, antes de uma decisão final.
Os produtos que colhemos nessas condições são quase que unicamente formações estereotipadas; possivelmente pela impessoalidade dos modelos prontos.
Com o tempo, a característica sedutora da arte faz romper essas defesas, permitindo a essas crianças o prazer das descobertas e consequentemente o contato com o legítimo.
A partir desse natural fortalecimento da legitimidade, onde as particularidades de cada indivíduo são consideradas e aceitas, notamos o rompimento dessas “relações de apoio” (simbioses), dando assim inicio a construção de suas verdadeiras identidades.
Ironicamente, com o fortalecimento da auto-estima nessas crianças, a arte abandona o lugar da fragilidade sentida por elas inicialmente para se tornar um recurso de defesa frente a essa mesma sociedade que vinha dificultando as suas existências.

domingo, 27 de março de 2011

EXPERIÊNCIA ÚNICA

Não sei se foi a arte ou a mistura social promovida dentro do Centro cultural Banco do Brasil que trouxe mais benefícios para os nossos jovens durante aquela visita. Quem sabe os dois, já que em algum ponto arte e diversidade sempre convergem.
A verdade é que não podíamos perder aquela oportunidade. Havia muita coisa em comum para ser descoberta pelos nossos alunos nas gravuras e desenhos de Escher.
Embarcamos então no ônibus fretado pela Farmoquímica (empresa patrocinadora do projeto no Jacarezinho)rumo ao CCBB. Ao chegarmos lá, as salas de exposição estavam tão cheias que tivemos que esperar no hall dos elevadores junto a um grupo de alunos de uma escola da elite carioca. Percebemos então, que ali já começava a visitação.
Os jovens do projeto pouco saem de suas comunidades, talvez por isso seus olhares pareciam ter encontrado seus pares vindos de outro planeta. Alguns minutos de exploração visual, contemplação, insegurança e por fim entraram os dois grupos quase juntos.
Já na primeira sala tentei mostrar alguns aspectos que julgo importantes na obra do artista, mas de repente percebi estava atuando como guia para pessoas que não faziam parte do projeto. Os “cabelos que balançam” de algumas alunas da tal escola, roubaram a cena do Escher e a minha consequentemente.
Calma Helio, não foi em vão! Tive que repetir várias vezes essa frase no pensamento, quase como um mantra.
Só percebi a importância daquele encontro sócio-cultural algumas horas depois. De qualquer forma, Escher não se manteve em segundo plano por muito tempo. Ufa! Nas salas seguintes ele conseguiu capturar os olhos sensíveis da galera. O encontro agora parecia ser com eles mesmos. Seus olhares iam sendo instigados para viajarem e descobrirem suas múltiplas perspectivas. A metamorfose, o dentro, o fora e a infinitude da fita de Moebius, apresentaram novos caminhos e possibilidades de transformação e conquista.
Quando voltávamos para a Farmoquímica, o lanchinho dentro do ônibus e um silêncio inesperado parecem ter ajudado a acomodar dentro deles aquela experiência única.

domingo, 5 de dezembro de 2010

PRIMEIRO, O AUTOCONHECIMENTO

“O terreno da aprendizagem só se torna fértil se for preparado com autoconhecimento.”


Estamos vivendo um importante período, em que os governantes parecem estar, enfim, preocupados com a reabilitação social e profissional de grupos que se desenvolveram a margem da sociedade constituída ao longo de décadas de descaso.
Cada vez mais, fala-se de projetos para inclusão social. Projetos que preparem os jovens moradores dessas comunidades marginais para o mercado de trabalho. Como principal meta, quer-se produzir "ocupação profissional" especialmente para as áreas ocupadas pelas UPPS.
Sem dúvida, são fundamentais essas ações para que haja verdadeiramente resgate social. No entanto, é importante pensar que, em termos educacionais, não há possibilidade de se transformar uma informação em conhecimento se não houverem experiências anteriores que tenham dado partida ao autoconhecimento.
Há seis anos, uma empresa carioca(Farmoquímica), situada no bairro do Jacaré, acreditou na importância desse principio como base para o resgate social e passou a patrocinar o projeto "Eu sou", possibilitando a uma equipe de arte-educadores atenderem a 120 crianças e jovens por ano, moradores da comunidade do Jacarezinho.
Nós da equipe do projeto, por termos alcançado resultados tão surpreendentes, não temos dúvida de que é através da arte que um indivíduo, de qualquer idade, pode se auto reconhecer.
Reconhecer-se promove inevitavelmente um contato com a própria potencialidade e com a presença dela, as informações parecem encontrar "liga" e se transformam em conhecimento.
Que a arte é promotora do autoconhecimento e valorizadora da potencialidade dos indivíduos, isso é certo. Não é, portanto, por acaso, que o esporte (por suas afinidades com a arte), a música e as artes plásticas, costumam produzir tão bons resultados no campo do resgate social.
Um bom exemplo disso, são os efeitos positivos obtidos pelo "Afroreggae", que há tantos anos vem retirando jovens da criminalidade.
Mas retiram como? Ensinando técnicas musicais?
Não, promovendo principalmente o contato dos jovens com eles mesmos e assim fazendo emergir as suas potencialidades.
Caminhos como os trilhados pelo "Afroreggae" ou como o projeto "Eu sou" que têm a arte como instrumento para suas ações, podem ter formas distintas de atuação, mas na verdade têm objetivos comuns: o fortalecimento do "eu".
Sob esse princípio, portanto, a tão desejada "ocupação profissional" só e capaz de ocorrer se houver um trabalho educacional que envolva, paralelamente, conhecimento profissional e autoconhecimento, ou não haverá terreno fértil para o desenvolvimento.

terça-feira, 28 de setembro de 2010

MÁSCARAS

Num determinado momento do projeto todos nós orientadores nos dedicamos à produção de máscaras modeladas sobre o rosto de nossos alunos. Um especial afeto se desenvolve entre orientadores e alunos. Segundo Andrea Spiegel, uma das orientadoras, “o rosto tem a marca da identidade, mas sinto que vamos para além disso, pois tocar um rosto com reverência traz a dimensão do sagrado”.

sábado, 7 de agosto de 2010

ROMPENDO A ANESTESIA

Minha cabeça anda inquieta e feliz pelo que nós da equipe temos perseguido. Tenho pensado muito na importância dessa constante reflexão que todos nós arte-educadores precisamos fazer já que é muito tênue a linha que separa o estabelecido e a arte (o ordinário e o extraordinário).
Precisamos mesmo ficar atentos para as diferenças entre, por exemplo, o conforto e a inquietação ou mesmo um padrão de certezas e a ousadia viva que, generosamente, nos oferecem as dúvidas.
Nosso trabalho é assim mesmo, entendemos uma parte e a outra nos aguça para continuarmos tentando.
No caso das crianças que atendemos no projeto, suas histórias são repletas de incompreensões, violências, injustiças, infelizmente potencializadas pela distância que elas vivem do imaginário, do sonho, do abstrato. Por isso, é comum assistirmos sensibilidades anestesiadas, tornando os primeiros contatos com a arte sempre difíceis, repletos de resistências.
Cada uma que ajudamos a romper essa barreira transforma-se no grande estímulo para buscarmos a multiplicação dessa conquista.

Há um ensaio do filósofo Paul Valéry sobre os mitos, que ele conclui assim:
“O que seríamos nós sem o recurso daquilo que não existe? Pouca coisa, e nossos espíritos, desocupados, tenderiam a fenecer se as fábulas, os enganos, as abstrações, as crenças e os monstros, as hipóteses e os pretensos problemas da metafísica não habitassem com seres e imagens sem objetos nossas profundezas e nossas trevas naturais”.

quarta-feira, 21 de julho de 2010

O MEDO DO ABSTRATO

Sentimentos, assim como tudo que se configura abstrato, se desenvolvem no imensurável e é essa capacidade de se adaptar a qualquer medida, que faz deles potenciais promotores tanto do prazer quanto da dor, com intensidades e tamanhos que sempre irão variar dependendo do valor e da medida que é dada a eles.
Talvez seja pela riqueza de possibilidades existentes nesse espaço sem medida que, para não se aventurarem no ilimitável,muitos procuram realizações concretas.
No projeto, encontramos crianças e jovens que parecem se assegurar em pensamentos e ações concretas para melhor lidarem com suas inseguranças. Evidentemente, o universo concreto, apesar de aparentemente mais seguro do que o abstrato, é sem dúvida mais limitador das ações criativas, no entanto, não se configura um impedimento para a arte, já que mesmo as "coisas" que compõem o universo visível, podem se constituir simbólicas. E é também com símbolos que a linguagem artística pode surgir

domingo, 16 de maio de 2010

INTELIGÊNCIA EMOCIONAL

O projeto “Eu sou” e “Eu quero” trabalha para o desenvolvimento dessa inteligência entre os grupos de crianças e jovens que atende.
Através de propostas artísticas específicas, buscamos estimular o autoconhecimento nas nossas crianças e, só depois de instalada essa conquista, promovemos o “ir de encontro ao outro”, comumente chamado de socialização.
Percebemos que essas relações interpessoais só passam a ser realmente produtivas (portanto capazes se promover desenvolvimento a todos os envolvidos), quando o indivíduo é capaz de se deslocar e se “colocar no lugar do outro”.
É dessa soma: autoconhecimento e percepção do outro (em suas diferenças e semelhanças), que se produz um campo possível de desenvolvimento para o que podemos chamar de inteligência emocional.
Como as questões relacionadas com a subjetividade são as grandes colaboradoras do crescimento dessa inteligência, é no criativo e na arte que vamos encontrar a grande potência; a fonte desse saber e desenvolver. No entanto, a educação instalada vem priorizando as conquistas técnicas e tecnológicas, tratando-as como únicas para a construção de um “indivíduo idealizado”. Pessoas vêm sendo pasteurizadas no máximo em “grupos iguais”, enquanto novas sociedades (tanto as afetivas quanto as profissionais) vêm se unindo às diferenças pelos mais variados motivos, inclusive para não se repetirem simplesmente e indefinidamente.
Há uma urgência na revisão do papel e importância da arte dentro dos meios que se dizem promotores dessa “formação”, para que esses (meios educacionais), não ampliem ainda mais a distância e o antagonismo que vêm se estabelecendo entre eles e essa nova sociedade que ganha forma.
Não acredito em educação sem a arte, assim como não acredito em crescimento sem um olhar diferenciado. Não há inteligência emocional sem o criativo e a particularidade.

sexta-feira, 14 de maio de 2010

UMA CASA QUE ME (RE)CONSTRUA

“Ao construir essas paredes, protegê-las por um teto, abrir janelas, portas e às vezes até colocar dentro dela móveis, objetos e pessoas, eu me reconstruo”.
Criança imaginária

O contato de um indivíduo com a arte parece só ganhar importância quando o seu criativo apresenta contornos de linguagem. Talvez somente depois da criação e o desenvolvimento de códigos, se estabeleçam verdadeiramente os primeiros vínculos entre o indivíduo e a arte.
Pessoalmente, só nomeio como arte, produtos ou ações artísticas que transponham o óbvio e consequentemente me façam pensar. Portanto, no universo artístico infantil, aquelas tradicionais produções recheadas de casinhas com chaminés, flores, árvores e morros redondos aquecidos por um sol com carinha, são na verdade a construção de um desafio; obstáculos colocados entre o indivíduo e a arte, que nós arte-educadores precisamos ajudar a transpor.
Sempre acreditei que, somente quando estereótipos perdem a força e são substituídos por resultados particulares, genuínos, é que se inicia um processo verdadeiramente expressivo. No entanto, o contato intensivo, que passei a ter, nesses últimos anos, com crianças “desnutridas de si mesmas”, como é o caso de muitas que atendemos no projeto, me fez reavaliar o olhar e o pensar a respeito.
Percebi que elementos típicos da representação estereotipada, como casinhas, flores, sóis e corações podem na verdade ir muito além da linguagem vazia e previsível que eu preconceituava, para se constituírem como elementos altamente simbolizadores de experiências vividas ou desejadas por essas crianças e jovens.
Quando essas crianças chegam ao projeto, a grande maioria jamais teve contato com outra linguagem que não seja com aquela em que se tentam conquistas básicas e concretas: uma linguagem de sobrevivência, de subsistência. Portanto, esperar uma relação dessa criança com um universo simbólico mais rico, ou seja, mais criativo pode ser no mínimo prematuro para não dizer irreal. O que acredito que se precisa rever e reconsiderar é que elementos comuns e aparentemente óbvios como as simples casinhas, podem conter simbolicamente muito do universo de experiências e desejos, tendo como prioridade o acolhimento e a proteção de quatro paredes.

TRANSFORMAÇÃO DAS ARMAS