Grave o seu nome, seu traço e reconheça a sua cor preferida. Num instante seguinte, mude de cor e de traço; se quiser, mude até a forma como desenha o seu nome. Descubra a liberdade de se transformar e de fazer a sua própria história”.

Helio Rodrigues


quinta-feira, 21 de abril de 2016

QUE A ARTE FALE O CONTRÁRIO

Os dias têm sido muito difíceis na favela do Jacarezinho e em todo o seu entorno, um local onde o projeto Eu Sou já criou raízes. Afinal, faz 10 anos.
Nesses dias de UPP, a violência parece se confirmar ainda mais banal; mas isso apenas para quem mora longe. Na verdade assustador para quem mora dentro da comunidade e que, entre outras coisas, precisa sair para trabalhar e é obrigado a deixar seus filhos seguros apenas pela fé num "que Deus os proteja".
Uma ação simples como ir à padaria tem hora e momento...e pode ser que nem tenha.
Os confrontos entre policiais e bandidos são assim mesmo, frequentes, e nesse ambiente as vidas só perdem valor. Quem estiver na linha de tiro leva a tal bala que dizem que é perdida.
Dentro do projeto, nosso trabalho é permitir que a arte fale o contrário que o cotidiano insiste em afirmar. Queremos que os nossos alunos vejam e escutem a própria arte. Que eles reúnam seus cacos de desvalia e se reconstruam. Que eles se olhem e se confirmem visíveis. Que eles se fortaleçam para poderem desejar algo que transcenda as paredes perfuradas de tiros de suas casas ou que transcendam o falso modelo de "sucesso" dos bandidos e suas armas douradas na cintura. Que possam ir além dos olhares de desdém de muitos policiais, como se ali só existissem seres indignos.
Nossa equipe de professores vem de vários pontos, empenhados em resgatar a sensibilidade das crianças, dos jovens e dos adultos da favela já tão anestesiados pelo medo e tão amargurados pelo desrespeito. 

Vem professor, da zona sul, norte, oeste e da própria comunidade, todos com muito medo. Nossos alunos chegam esbaforidos, com cara de "ufa, consegui!!!", como se dissessem: atravessei o "front"!
Todo o esforço dessas crianças e jovens para chegar nessa ilha de arte e paz merece encontrar por lá a dedicação dos  professores. Posso afirmar que o esforço e a coragem é geral.

2 comentários:

  1. que lindo, helinho, vc encontra e difunde um viés poetico em plena zona de medo e terror... que balsamo pra essas pessoas, cujas vidas sao diarias roletas russas, poder contar com seu amor, sua "proteçao", atraves da arte... voce vai direto pro ceu... bjs no clã....

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  2. Que bom te ler amigo querido. Os depoimentos e os processos artísticos dessas pessoas que como vc bem diz vivem em plena zona do medo, são nosso maior estímulo pra continuidade desse trabalho. beijos pra vc também.

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TRANSFORMAÇÃO DAS ARMAS